segunda-feira, 4 de maio de 2015

Eu, professora. (Daniela Gonçalves)

Entrei na faculdade uma menina. Cheia de sonhos, sozinha no Rio de Janeiro, vim para ser professora. Sempre fui a ovelha negra da família, era a atriz maluca do cabelo pintado. Escrevia poemas, delirava com Clarice, era bem feliz. Não sabia o que era fazer faculdade, não sabia como era ser mulher, não sabia se estava preparada para me preparar para uma profissão. Bom, esse ano “serei alguém”. Carreira, dinheiro e canudo. Mas isso não me convence. Acho que se eu não fizer a diferença nesse mundo das Letras, sinceramente, não vou me orgulhar de ser eu. O que eu espero de mim? Qual será a Dani em sala de aula?
Tecer palavras e construir um texto sobre isso só me faz ficar ainda mais ansiosa, pois eu não me conheço como professora. Sei sobre traços da minha personalidade, mas que valores carregarei em minha bolsa amarela para me orientar ao lecionar? Entretanto, reconheço que lidar com pessoas sempre foi meu forte, adoro a comunicação. Apesar de não chamar a atenção pelo meu tamanho, me imponho com facilidade. Detesto falta de educação, muito menos falta de amor entre as pessoas. E agora? Os alunos andam tããão mal educados. Ser educador vai além de ser professora, disso todos sabemos. Mas como educar? Não acredito no grito nervoso, não acredito em sistema totalitário, não acredito em “cuspe e giz”. Sabe, quero ser uma professora diferente. Nada de silêncio eterno, não quero nenhum robô perto de mim, quero pessoas que troquem olhares sinceros comigo e que me façam acreditar que posso confiar neles.
Quero aluno cabeça aberta, quero desconstruir conceitos, quero deixar que eles façam suas escolhas e que as compartilhem comigo. Quero combater, junto a eles, os preconceitos. Quero mostrar os diversos caminhos da vida e dizer os prós e os contras. Quero dar uma verdadeira aula de Português! Quero contextualizar os conteúdos, trazê-los para a vida real ao ensinar aquela gramaticazinha normativa que tenta normatizar tudo. Apresentá-los à poesia, aos versos de Vinícius de Moraes, claro que de forma descontraída, claro. Posso fazer análise sintática com letra de funk, rap...o que for possível. Quero que aprendam a escrever, quero que se tornem leitores, porque ledores já existem muitos por aí. Rodas  de leitura, jogos e, caso o livro didático adotado seja uma merda, vou esquecê-lo por vezes “sem querer querendo”.

Como disse, não me conheço, ainda, como professora. Mas já sou quase uma e tenho sonhos. Se minhas tentativas como professora fracassarem, vou tentar outras. Mas não quero terminar numa sala de professores apenas lembrando dos defeitos dos alunos ao tomar café. Quero que me respeitem, quero respeitar também. Quero consideração, quero considerar. Já fui aluna de segundo grau e me lembro que a minha turma era sempre a mais bagunceira, mas sempre tinha um professor que adorávamos e que respeitávamos muito mais, talvez fosse ele realmente o cara esperto: era um ator, sem deixar de ser sincero. Era professor, sem deixar de ser educador. Era firme, sem deixar de ser humano.

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