Entrei
na faculdade uma menina. Cheia de sonhos, sozinha no Rio de Janeiro, vim para
ser professora. Sempre fui a ovelha negra da família, era a atriz maluca do
cabelo pintado. Escrevia poemas, delirava com Clarice, era bem feliz. Não sabia
o que era fazer faculdade, não sabia como era ser mulher, não sabia se estava
preparada para me preparar para uma profissão. Bom, esse ano “serei alguém”.
Carreira, dinheiro e canudo. Mas isso não me convence. Acho que se eu não fizer
a diferença nesse mundo das Letras, sinceramente, não vou me orgulhar de ser
eu. O que eu espero de mim? Qual será a Dani em sala de aula?
Tecer
palavras e construir um texto sobre isso só me faz ficar ainda mais ansiosa,
pois eu não me conheço como professora. Sei sobre traços da minha
personalidade, mas que valores carregarei em minha bolsa amarela para me
orientar ao lecionar? Entretanto, reconheço que lidar com pessoas sempre foi
meu forte, adoro a comunicação. Apesar de não chamar a atenção pelo meu
tamanho, me imponho com facilidade. Detesto falta de educação, muito menos
falta de amor entre as pessoas. E agora? Os alunos andam tããão mal educados.
Ser educador vai além de ser professora, disso todos sabemos. Mas como educar?
Não acredito no grito nervoso, não acredito em sistema totalitário, não
acredito em “cuspe e giz”. Sabe, quero ser uma professora diferente. Nada de
silêncio eterno, não quero nenhum robô perto de mim, quero pessoas que troquem
olhares sinceros comigo e que me façam acreditar que posso confiar neles.
Quero
aluno cabeça aberta, quero desconstruir conceitos, quero deixar que eles façam
suas escolhas e que as compartilhem comigo. Quero combater, junto a eles, os
preconceitos. Quero mostrar os diversos caminhos da vida e dizer os prós e os
contras. Quero dar uma verdadeira aula de Português! Quero contextualizar os
conteúdos, trazê-los para a vida real ao ensinar aquela gramaticazinha
normativa que tenta normatizar tudo. Apresentá-los à poesia, aos versos de
Vinícius de Moraes, claro que de forma descontraída, claro. Posso fazer análise
sintática com letra de funk, rap...o que for possível. Quero que aprendam a
escrever, quero que se tornem leitores, porque ledores já existem muitos por
aí. Rodas de leitura, jogos e, caso o
livro didático adotado seja uma merda, vou esquecê-lo por vezes “sem querer
querendo”.
Como
disse, não me conheço, ainda, como professora. Mas já sou quase uma e tenho
sonhos. Se minhas tentativas como professora fracassarem, vou tentar outras.
Mas não quero terminar numa sala de professores apenas lembrando dos defeitos
dos alunos ao tomar café. Quero que me respeitem, quero respeitar também. Quero
consideração, quero considerar. Já fui aluna de segundo grau e me lembro que a
minha turma era sempre a mais bagunceira, mas sempre tinha um professor que
adorávamos e que respeitávamos muito mais, talvez fosse ele realmente o cara
esperto: era um ator, sem deixar de ser sincero. Era professor, sem deixar de
ser educador. Era firme, sem deixar de ser humano.
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